Visão em desenvolvimento: o cuidado ocular na infância – Parte 2

Republicando postagem da Timirim, disponibilizamos a segunda parte da entrevista exclusiva com a Dra. Ana Carolina Cassiano, uma referência em oftalmologia, trazendo exemplos para melhor ilustrar como cuidar da Saúde dos Olhos dos pequeninos.

O que é a Ambliopia? Tem tratamento?

Dra. Cassiano: Ambliopia é a gente enxergar mais de um olho do que do outro. Então o olho ele tem uma formação normal, só que tem alguma coisa que impede que a imagem chegue nítida lá no cérebro. Então uma diferença de grau de mais de 2 grau sem um olho, e 1.5 graus para o outro, já pode gerar ambliopia. Vamos supor que uma pessoa tem zero num olho e tem 5 graus no outro olho. Isso pode acontecer e é comum. O que tem zero, a imagem vai chegar nítida. O que tem 5graus, a imagem vai chegar embaçada. Quando chegar lá no cérebro, o cérebro tem que juntar essas duas imagens para interpretar, só que uma imagem está nítida e a outra embaçada, portanto, elas não são compatíveis. O cérebro para não atrapalhar o desenvolvimento da criança, anula a imagem embaçada e ele vai dar preferência paro o olho que manda a imagem nítida e vai esquecendo o outro olho que manda a imagem embaçada. Chamamos isso de supressão. O desenvolvimento visual cerebral vai ser normal de um dos olhos e do outro olho vai ser prejudicado. E se não for corrigido e tratado a tempo, a pessoa fica com uma visão deficitária daquele olho para o resto da vida. Precisa ser tratado antes dos 7 anos de idade. E a criança não reclama, ela não fala: – “Oh, eu não enxergo desse olho, só desse”.

Exemplo 1 – Recebi um paciente, pré-adolescente, a mãe profissional da saúde, mas nunca tinha levado o filho ao Oftalmo. Quando eu coloquei um óculos para tampar um olho de cada vez, para medir a visão… tampei o olho esquerdo, e deixei livre o direito,ele falou para mim: – “Não, esse olho eu não enxergo bem, só do esquerdo”. Ele sabia que ele não enxergava bem. A mãe quase caiu da cadeira: – “Por que você nunca me falou isso?” E ele respondeu: – “Ah, não sei, sempre foi assim.” Ele sabia que ele enxergava menos do olho direito do que do esquerdo, mas para ele aquilo era normal, porque sempre foi assim. Tratamos, melhorou, mas não chegou a 100% de visão, ele ficou com um pequeno déficit desse olho.

Existem outras pessoas que ficam com um déficit muito importante porque não dá tempo de tratar. Por isso é importante fazer exames de rotina, mesmo sem ter nenhuma queixa, porque muitas vezes os paisnão percebem, o pediatra não percebe e a criança não fala, porque para ela aquilo é o normal, é o que ela está acostumada e tem criança que na hora que coloca os óculos não tira mais também, porque ela fala: – “Nossa, agora tô enxergando!”

Exemplo 2 – Teve um pai que na hora em que eu prescrevi os óculos para o seu filho, eleficousuper assustado. Aliás, a gente recebe muito segunda, e terceira opinião, porque os pais não esperam. Indiquei 5graus para essacriança, e quando ele chegou em casa, após fazer os óculos, soube que ele olhou a parede, e falou:- “Nossa, por isso que essa parede é assim.” A parede tinha uma textura que ele não via, ele só sentia a textura na parede de sua casa. Olha o quanto essa criança estava tendo dificuldade.

Exemplo 3 – Uma menina de 4 anos que atendi, disse para a mãe: – “Nossa, mamãe, nessa foto você tá com a cara meio embaçada”. E a mãe notou que ela não estava enxergando direito. Foram coisas sutis, como você está com o rosto embaçado nessa foto. E a mãe resolveu trazer a Clínica, porque entendeu que a menina não estava enxergando bem. São coisas muito sutis, mas às vezes não têm essas sutilezas e até os 7 anos de idade a gente precisa tratar. Depois pode até ser que a gente consiga resultado, dependendo do caso, mas é mais difícil. O tratamento normalmente é tampão. A gente tampa o olho que o cérebro prefere para o cérebro entender que o outro olho também é importante e vai estimulando a visão e estimulando o desenvolvimento visual cerebral referente àquele olho. A gente faz o estímulo e espera que o cérebro responda. Ele tem que melhorar a visão para chegar igual ao do outro olho. Depois o cérebro tem que entender que ele precisa juntar as duas imagens. Isso também é muito importante, porque às vezes a gente consegue juntar a visão, fica igual, só que o cérebro não usa os dois olhos ao mesmo tempo. Então a pessoa continua preferindo um olho em relação ao outro e isso diminui muito a visão 3D. A VISÃO 3D é o suprassumo da nossa visão e a gente só enxerga 3D porque a gente enxerga com os dois olhos ao mesmo tempo. Se um olho tá enxergando melhor do que o outro, a sua visão 3D é comprometida. Quem tem estrabismo, por exemplo, a visão 3D é comprometida e a pessoa tem mais dificuldade de coordenação motora, atividades, esportes, é aquela pessoa que esbarra em tudo. Recebemos crianças que tem dificuldade de leitura, escrita, aprendizagem, porque tudo isso impacta.

Existem sintomas ou comportamentos que indicam problemas na visão das crianças? O que os pais devem observar no dia a dia?

Dra. Cassiano: Qualquer tipo de atraso no desenvolvimento pode estar relacionado com problema visual, então até atraso na fala, porque a criança precisa enxergar a boca das pessoas para que ela aprenda a fazer a dicção. Eu já atendi até criança sendo tratada como TEA e não era TEA, a criança estava precisando de óculos, ela não enxergava e tinha atraso de fala, não fixava o olhar. A criança que não consegue desenvolver bem, que não está aprendendo, lendo, escrevendo, que esbarra nas coisas, que não escuta direito, mas na verdade ela não está enxergando bem, não é porque não está ouvindo bem. Esses são sintomas e comportamentos sutis… o ideal é fazer um exame de rotina, e o mais importante é acreditar no seu filho, pois às vezes o filho fala que não tá enxergando bem e os pais acham que ele está querendo usar óculos, pois algum amiguinho está usando óculos, então acredite no seu filho!

Além de médica, a Doutora imergiu em uma jornada de estudos e descobertas na Neuro visão – alterações sensoriais e posturais que impactam diretamente na visão e no aprendizado infantil. Conte-nos a respeito.

Dra. Cassiano: Depois que abrimos a Clínica, notei que as crianças que teoricamente enxergam bem, não estavam aprendendo, então o que mais eu poderia fazer por essas crianças? A visão é um dos cinco sentidos, mas a gente tem outros sentidos que são menos conhecidos. Um deles é a propriocepção, e a propriocepção além de regular a postura, ela regula a integração multissensorial. Quando entram as informações externas para o mundo interno, pelos nossos cinco sentidos, quem integra tudo isso é a propriocepção. Se este sentido estiver desregulado, a integração sensorial fica desregulada e a criança acaba tendo uma perturbação dos diferentes sentidos, e isso impacta no desenvolvimento, no comportamento e na aprendizagem; leitura, escrita, principalmente coordenação motora, alteração de percepção visual, percepção auditiva, espacial, às vezes olfato e paladar. Eu fui estudar para entender como tudo isso se relaciona no cérebro e para ajudar as crianças a melhorar o máximo que a gente consegue.

Qual a mensagem que a Doutora gostaria de deixar aos leitores?

Dra. Cassiano: A minha mensagem vai para os pais e pediatras. Não precisa esperar a criança reclamar ou mostrar qualquer sinal, a gente deve começar antes de a criança começar a sofrer. Façam o exame oftalmológico completo com dilatação pupilar, lembrando que toda criança e adolescente precisa dilatar a pupila para ver o grau com a devida precisão, assim até uma criança que não fala, conseguimos medir o grau dela, dilatando a pupila. Busque um oftalmologista e cuide da visão dos pequeninos.